Um homem de 60 anos sofreu um acidente grave de trotinete, quando não usava capacete. Já esteve em vários hospitais e ficou com lesões graves que exigem um cuidador permanente. Associação lançou petição pública para tornar obrigatório o uso desta proteção para a cabeça.
Um acidente de trotinete mudou para sempre a vida de João (nome fictício). Aos 60 anos, um desnível no asfalto fez com que fosse projetado cerca de 14 metros, o que lhe causou um traumatismo cranio-encefálico. “Entrou logo em coma”, conta à SÁBADO uma familiar, Ana (nome fictício). Não levava capacete e a sua história é uma das que motivou a associação Novamente, que apoia pais, médicos e amigos de Traumatizados Crânio-Encefálicos, a avançar com uma petição no sentido de obrigar ao uso de proteção quando se anda de trotinete.
Tudo aconteceu no dia 23 de agosto, perto das 18 horas, quando a vítima foi fazer um recado a uma ótica, em São Mamede de Infesta (Matosinhos). Seria uma viagem de 2 minutos, entre a sua casa e a loja. João estava sozinho e, segundo Ana, esqueceu-se do capacete na cozinha da sua casa. No dia do acidente, tinha consigo os documentos e a carteira, pelo que momentos depois do acidente, quem assistiu acionou a polícia e o INEM.
“Esteve um mês em coma no hospital de são João. Após acordar do coma, saiu dos cuidados intensivos e foi transferido para a neurocirurgia onde esteve mais uma semana. Sofreu várias lesões no cérebro, as lesões cerebrais eram muito extensas e era preciso drenar o líquido que o cérebro estava a produzir nos primeiros dias. O cérebro incha, deixa de haver espaço para o líquido, sendo preciso drená-lo. Ao ser drenado o líquido, o cérebro entende que há uma insuficiência e começa a produzir mais. Tem de continuar a drenar e a pressão cerebral a ser monitorizada 24 horas, só quando há uma estabilização da pressão é que é equacionado tirar os drenos”, conta Ana.
A vítima é descrita como um ex-militar que, aos 60 anos, ainda se sentia “jovem”. Assim, para evitar o carro, decidiu adquirir uma trotinete, que custou €600, para utilizar quando não estivesse a chover.
Na primeira conversa com o médico, foi dito a Ana que João estava entre a vida e a morte, o que levou a “vários dias de incerteza”. Apesar de Ana ter alertado a vítima para que andasse apenas em ciclovias e com capacete, nunca imaginou que um acidente provocasse algo tão sério como lesões a nível cognitivo e motor e a perda da capacidade de andar. “Quando recebemos a notícia foi um choque, fiz várias despedidas, se calhar nunca mais o vejo de olhos abertos”, lamenta.
O certo é que uma queda a 20Km/h sem capacete pode provocar lesões cerebrais graves e até a morte. O número de acidentes de trotinete tem aumentado. Segundo os dados do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), em 2021, registaram-se 946 acidentes. Em 2022, foram 1.691 acidentes, uma média de 141 acidentes mensais.
Neste sentido a associação Novamente lançou, a 8 de fevereiro de 2023, uma petição pública para tornar obrigatório o uso de capacete em trotinetes. Esta será entregue à Assembleia da República e já conta com 2.046 assinaturas.
Sempre que vê alguém a andar de trotinete sem capacete, Ana dá o alerta. “Já encostei o meu carro duas ou três vezes para usarem o capacete, dando-lhes esta experiência. Um senhor da mesma faixa etária emocionou-se”, conta.
A associação entrou em contacto com Ana para a ajudar na parte burocrática. João ficou com lesões permanentes graves que exigem um cuidador permanente. “Não tenho condições, tenho um filho com 7 anos, estou grávida. Seria difícil conciliar a vida familiar e profissional. Fizemos uma reunião na semana passada para me esclarecer o que posso fazer para ajudar. Estamos a falar com assistentes sociais. Faço terapia desde que isto aconteceu. Soube uma semana depois do acidente que estava grávida. Se por um lado era uma gravidez muito desejada, nesta fase é um processo complexo de gestão emocional”, lamenta.
Neste momento, João foi transferido para a unidade de cuidados continuados onde ficará mais três meses. A família procura uma solução de residenciais de idosos, mas receber este apoio é “complicadíssimo”. Os quartos partilhados custam entre 1.800 e os 2 mil euros, sem fraldas e medicação.
Segundo a Novamente, “este meio de transporte tem inquestionáveis vantagens para o meio ambiente e é muito prático para quem vive nos centros urbanos, mas a verdade é que na sua utilização muitas vezes são negligenciadas as normas de segurança”. Com a petição, apelam à “proteção do que mais precioso e mais sensível temos no nosso organismo: o cérebro”.
Em 2022, o INEM registou 1.690 casos de traumatizados cranio-encefálicos causados por acidentes com trotinetes. Apesar disso, o número pode ser superior, uma vez que em muitos casos nos registos apenas aparece “queda”, explica o médico Roque da Cunha Ferreira, membro diretivo da Associação Novamente.
Fonte: https://www.sabado.pt/vida/detalhe/uma-viagem-de-dois-minutos-em-trotinete-deixou-joao-em-coma
